segunda-feira, dezembro 05, 2016

Quadro Novo






apanhei jasmins cansados, há muitos, mortos

pra perfumar nossa presença

pendurei umas luzes pra que se apagassem as incertezas

e somente o que nos impelisse ficasse à mostra

te entreguei uma parte de meu torto...

que é um todo,

de palavras mortas e esquecidas

espalhei nossas memórias pelas ruas inabitáveis dessa cidade

guardei teus murmúrios numa fresta eu nem sabia mais existir dentro do peito

agora, te retomo e te eternizo.

te escrevendo, com a dor indizível, insistente, no peito

te amargando com a junção dessas letras

perpetuadas por tantos devires

de esperas remotas, de entregas sem remetentes

de um outro que não se sabe ser e que se nega impetuosamente

que já não me ouve, não mais se vê

que se fez mudo. inerte

não te esqueço,

não (te) retorno.


(...)


me arrasto em direção a tua casa;

te devolvo

a parte do teu torto

que nunca me fui bem-vinda

que nunca me fui convidada a ser,

a não ser,

por protocolos que te impuseste...

tu e tua forçosa gentileza

tua cordialidade imprestável,

humilhante.




as coisas perderão o significado, como há de ser;

como um quadro que se olha há tanto tempo

que não se sabe mais o que olhar

e a vista desvia, torturada, pela ausência de sentidos.

tu te tornarás esse quadro.

por tua natureza imperturbável, por tua indiferença de tinta seca,

por tua frieza de lápis-lazúli,

emoldurado numa redoma inquebrável que tu mesmo pregaste por cima,

numa quina da tua discreta parede branca de apartamento vazio. como tu. 



percebo,

até hoje não lembro o número da tua casa.

casas nos externam, dizem.



quinta-feira, setembro 03, 2015

sexta-feira, maio 25, 2012


O que é que tá tão errado?
Sou eu ou apenas as pessoas? Creio que seja uma questão de espécie; o problema me envolve como partícula presa ao mundo, como parte da peça. Penso minha inércia ser um erro também; para a expiação e purgação da minha espécie. Sucumbir ao lidar com o entorno, com o que se passa, a vertigem com o que pesa.
 Esse embrutecimento não vem das pedras... As pedras são mais humanas (segundo o ideal de humano) do que qualquer ser que se encontre pelas ruas do mundo. Desse mundo. Não há espaço para respirar; comemos câncer e vivemos ao som de mentiras e escárnios em nossas caras. Não há sequer verdade no intento de uma poesia; perde-se o rumo diante de tanta barbárie. É um sufoco viver, é um peso que aumenta a cada segundo, a cada passo para fora e para dentro de casa. As pessoas perderam o sentido, embruteceram. Não no sentido das pedras, não na resiliência mineral das pedras; as pessoas não possuem a fortaleza e a resistência das pedras, as que se esforçam para se embrutecerem dignamente acabam fraquejando em um estoicismo mais deturpado do que poderia conceber o seu conceito.
Meu respirar tem-se tornado cada vez mais pesado, tenho sentido, em tão densa difusão, tal repugnância pelas pessoas, pelo seu medo, pelo cheiro de impotência e não pertencimento, à vontade, o implorar no jeito que elas caminham pela santíssima ignorância, pela cegueira onipresente. Por seu recaimento em mônadas. Tenho sentido repugnância por estar imersa e inserida nisso. -falar nessas coisas é démodé; - deve ser algo como hiperhumanização, ou qualquer eco místico que nos disse que somos seres individuais e autossuficientes, que podemos e que temos de exacerbar nossa vontade por potência, a fim de nos tornarmos o novo-homem;
As pessoas evitam-se, elevam-se em egos, afastam qualquer possibilidade de construção, de comunhão. É humilhante ser uma voz abafada, entre tantas outras vozes abafadas por um sistema que nós deixamos e ajudamos a emergir em tão pouco tempo. Antes de qualquer definição, o homem é homem, alguém disse. Antes de ser consumidor, espectador, objeto da história ao invés de sujeito. Vários alguéns, provavelmente já mencionaram isso. O homem é um bicho que tem se imposto violentamente à sua natureza de bicho; transmuta-se em máquina, em estrume básico pra uma colheita escassa. Pequenas engrenagens empenhadas por uma definição em seu espaço ocupado na roda, nada mais. Estamos em estado de ultrafalência...
Não exponho esse texto por intenções estéticas; está truncado e tantas outras coisas mais que são irrelevantes e extremamente desnecessário apontá-las, posto que não tenciono nenhum direcionamento para deleite do mesmo.  Não tenho intento em filosofias também, muito menos militâncias ou qualquer algo. Exponho esse texto como voz abafada – como exasperação da voz abafada - que não vê sentido em escrever poesia ou ensimesmamentos há tempos. 

segunda-feira, abril 09, 2012

fragmentos

a perda é imanente a um sujeito passional
a incapacidade de lidar com a realidade,
com outros seres torna o espírito essencialmente tomado por arroubos
a necessidade por ensimesmamentos 
diante da perda do outro
a solidão e o isolamento chamam
quando o espírito pesa ao relacionar-se com outros.
é impossível viver.


(...)


era isso afinal que dizias quando não mais te escutava;
quando te tinha aprisionado,
me sentindo liberta dos teus delírios vertiginosos...
agora, tudo jaz... e findará assim;
por mais que te tenhas apartado,
te guardo
afogado 
na imagem do lago.. 
onde resta apenas sombra e memória


interessa-me apenas um extinguir
percorro vazios onde sei que não há (tu)


afinal, era isso que querias dizer...
quando disseste que eu não era (mais)

sexta-feira, novembro 11, 2011

estrada

as dores, os partos, amores e desabos sulcam a fisionomia;
o tempo talha na face os caminhos por onde erra..
intricados de traços tingem-se na agonia e na ânsia;


o corpo duro do cadáver escancara a sua história através dos sinais na sua derme.

segunda-feira, outubro 24, 2011

já deveria estar chovendo.

foi o que ela pensou quando levantou da cama. 
aquele começo preguiçoso de rotina,
a tal calma interior contrastando com os ruídos externos da metrópole, 
cada vez mais cinza de concreto e de gente que não sabe que respira.
acordou para nada; 
teve para si que a beleza tem tornado-se algo virtual, impassível de sentidos reais. 
não viu razão para ter acordado. 
tudo carecia de motivos. 

segunda-feira, outubro 03, 2011

enlevo

lembro-me agora. quando dividimos aquela maçã; “a mais doce que já provara”, era o que eu pensava, enquanto mordia e te tinha na penumbra da sala. ali tínhamos pactuado qualquer coisa dentro de nós, sem ao menos saber, como quando te devolvi a maçã para que também pudesse sentir aquele doce na boca que insistia em prolongar-se. não  me atinha o encaixe das coisas, nem o símbolo daquela partilha. penso agora que talvez ela tenha selado um prenúncio de bons tempos... como em celebrações ancestrais em colheitas nos campos de povos distantes. me pego a contorná-los junto a ti, com um vento baixo e uma sombra de macieira aos nossos pés, e à nossa frente, o horizonte emoldurando um pôr-de-sol em macios laranjas a refletir um negro cacho teu.

quinta-feira, setembro 01, 2011

as rodas


Elas não cessam de girar.
A duração do trajeto -nunca definido- determina a resistência do ser.

Giram, numa dança trôpega, debochada, para no fim gritarem num entrecorte de chiados ruidosos e gemidos abafados pela peça pregada (novamente): o fim é o começo que é o fim que é o começo de, do fim do... Minha cabeça pesa, e eu tento parar, mais uma vez, eu tento parar. Tudo se reduz a um teste de resistência. E o pendor para a queda inflama a cada vez que as rodas tomam impulso pro seu percurso costumaz; é como a vertigem de se estar no alto duma montanha.. Aqueles dois segundos oscilantes de plenitude ou ausência completa de sentidos, como o estrangeiro do Camus. Os sentires sempre domados pelos brincantes que guiam o percurso. Imagino-os claramente: amarelo-mostarda desbotado, vermelho-sangue manchado, e um azul quase negro de tanta sujeira que compõem os trajes, em contrapostos à maquiagem impecável por baixo dos rostos cobertos de galhofa. A perversão através da loucura por trás dos olhos. Apontam com dedos em vírgula instigando o desvario, provocando a Angústia. Delineio este quadro pois é mais sustentável do que martírios inconsistentes. É um expurgo (imagino os risos extravagantes deles ao lerem isto, estremeço). 

sábado, julho 09, 2011

Conto

(...)
Ouvi centenas de gatas virgens a gritar. Gatos, gatões com semblantes de 1965. 1.920. E eu me pergunto o que isto significa enquanto ainda me situo numa transconsciência que escorrega pelos meus olhos, superando a memória... Despertei.  O quarto recendia a mil chuvas antigas...  O que fazias, menino-rapaz? Angústias percorrendo todo o meu corpo, desconhecia qualquer pensamento por trás do dele. Sentado de frente para mim, num extremo da cama, sei que me olhava, mas não pude ver, seus contornos tremiam como que dezenas de luzes o ascendesse. Estava a articular, articular... A resposta na voz dele estava limpa. Estava tudo certo. Estavas a me cansar, menino-rapaz? Aqueles códigos que saíam de minha voz não soavam como palavras. E o que farei, alles? As lembranças me aparecem em divinações... Como se nunca tivessem sido.  
(...)
Vontades de pular e dissolver devagar por entre as articulações dele, velozes... Fugazes... Me és tão familiar atrás do translúcido das cortinas. Passaram-se minutos, horas, eu a fitá-lo. E fiquei triste. Imóvel por entre os lençóis, dentro de mim mesma. O cheiro dissipou-se em mornos, e o calor retornou, estralava junto aos membros... Eu andava a articular, menina... Algo em mim chiou, como arranhões de mil gatos, como gemidos dentre madrugadas ancestrais... Deixei-me tomar, e adormeci um sono que temo recordar, suas palavras ainda a ressoar num embotamento de sonhos... 



os sonhos são a libertação e também a prisão da mente

terça-feira, junho 14, 2011

desenhos de estratos boreais no céu do fim-da-tarde;
contornos do infinito no braço dela com meus dedos,
incessantemente...
o turvo saiu dos meus olhos e pude enxergar por instantes
um sentido qualquer...
até que algo que me transportava fez a curva,
 e nada mais vi
além de fumaça
e tons de cinza ao cair do dia.

segunda-feira, maio 09, 2011

A janela de João não dá pro horizonte

A janela de João não dá pro horizonte. Dá de cara todos os dias com o reboco do muro velho. João geralmente acorda desanimado; seu ímpeto de viver é da cor do muro velho: uma mistura de branco, cinza e preto, que prende a vista pela inconsistência de tal homogeneidade. João não tem amigos, sequer um cachorro. Além da moça do caixa da padaria, os únicos seres reais com quem João fala são as pessoas do outro lado da linha reclamando, questionando, exigindo. As pessoas do outro lado da linha são aquelas que João atende todos os dias direto da sua cabine estreita no prédio cinza onde trabalha. João não tem gosto por comida; ele as consome porque foi convencionado à isto. João não tem gosto por nada. Nem ao menos pelo marasmo que é a sua vida, quanto mais pela anulação dela. Não, João acha isso coisa de gente descompensada.

sábado, abril 30, 2011

Solitude


“A solidão, o sentir-se e saber-se só, desligado do mundo e alheio a si mesmo, separado de si, não é característica exclusiva do mexicano. Todos os homens, em algum momento da vida sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que sente só e o único que é busca de outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si mesmo quando disse “não” à natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca de comunhão. Por isso, cada vez que sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão”.


PAZ, Octávio. O labirinto da solidão e Post-scriptum; tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984. p. 175.

sexta-feira, abril 29, 2011

terça-feira, março 22, 2011

aonde eu descanso?



no colo de quem eu descanso?
oceanos de desertos
em massas de metal
recolhidamente torcidas
frageis mecanismos tácteis
em que horizonte eu me basto?
a que ser recorro?
 o eu de mim,
 também composto de máquinas e deslumbres cromados?
o eu de tu,
aonde não encontro,
exceto pelos escombros dum monumento
nunca antes lapidado.
fragmentos de nós
em pesos dissolutos;
ouve?
o pulsar do teu pescoço no meu colo.
ouve?
em pequenos circunspectos,
numa clausura muda, 
meu peso.
diante de ti,
do mundo,
e dos escombros do horizonte arrebatado pela grandeza do cinza.
onde a suavidade do azul já se enganou,
e a ti foi partido.
lá,
abraçado por concreto.


Originalmente em: envelope de poeira.

domingo, março 20, 2011

segunda-feira, março 07, 2011

quando cessam os instintos; (lemniscata)

de eterno cessar que são feitos os pequenos destinos;
mecanismos de rodas calejadas entreolham e estremecem
ao fim do percurso 
os tremores recomeçam pois é chegada a hora do começo
do fim 
do começo... 
o efêmero eternizar de um corpo só; onde os instintos são tão pequenos que se perdem
nos giros, deslizando fácil entre as engrenagens cansadas e reconhecíveis...
elas não se tocam... 
dentro destes minúsculos é possível avistar
seres
uma janela
um rio
árvores
além da podridão costumaz
o ciclo segue pulsando, 
as rodas carecem anseios...
anseiam carícias...,
junto com os orgasmos espalhados
pelos tetos
pelos gatos
pelas árvores lá fora
de uma vista que não é minha...
duns olhos que não são meus...
em breves lapsos me encontro,
e é como se fosse tomada
em possessões 
e nada se tivesse a fazer;
as rodas vagam... não mais se olham...
há brilhos pregados no teu rosto, menino...
 há muitos tu andas impregnado com a sujeira deste lugar...
tua face oscila, num noir dormente, onde não mais sinto
teu sexo
desfaz-se de lânguido e persegue a neurose do possuir
como um ditador velho e esquecido...
não mais te vejo
busco meus olhos
e eles estão muito além do que posso enxergar,
deixo-me ir a qualquer lado
pois sei do caminho...
e o dia vai alto,
indiferente às cores
aos cheiros
e à solidão 
do meu amor...
onde eu não estou.


sábado, fevereiro 05, 2011

sobre sementes invisíveis.

o ventre é o espaço onde cabe o outro; onde cabe a si mesmo, como fosse o outro. a semente é soprada aos quatro cantos; onde estamos é o único lugar onde não está. a cabeça mantém o horizonte, enquanto pés trocados buscam a semente, onde a vista perdeu o coração não mais a sente. carregando na mão o conceito de que o coração é um pedaço de carne. o ventre é preenchido de carne. as sementes se perdem porque não são enxergáveis a mundos de carne; e a pés trocados não são acháveis. eles também são de carne. ainda assim, os quatro cantos nos estão dispostos. neles encaramos quatro horizontes.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

me pus dentro um incensário; por tento de luminar meus caminhos e adocicar a essência de quem os permeia...